Escrito por Camila Izabela de Oliveira, enfermeira e mestre em Saúde Coletiva pela UnB. Última atualização: julho de 2026.
O fisioterapeuta atua na traqueostomia cuidando da via aérea artificial e da função respiratória em todas as fases: limpeza e monitoramento da cânula, aspiração de secreções, ajuste do ventilador mecânico, avaliação para a retirada da cânula (decanulação) e reabilitação respiratória, da voz e da deglutição. Esse trabalho acontece tanto no hospital quanto no cuidado em casa.
Um ponto importante para as famílias entenderem desde já: o fisioterapeuta não realiza a cirurgia da traqueostomia nem faz sozinho a retirada ou a troca da cânula. Segundo o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO), esses são procedimentos que fogem das atribuições diretas do fisioterapeuta. O que ele faz, e faz muito bem, é avaliar, tratar e preparar o paciente para cada etapa, dentro de uma equipe multiprofissional.
A traqueostomia exige acompanhamento especializado e contínuo. Sem esse suporte qualificado, aumentam os riscos de complicações como infecções, obstrução da cânula e dificuldade no desmame do ventilador. Entender o papel do fisioterapeuta em cada fase ajuda a garantir um cuidado mais seguro para o seu familiar.
Aviso importante: este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Ele não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Decisões sobre a traqueostomia, o ventilador, a decanulação e a reabilitação devem sempre ser tomadas pelo médico e pelo fisioterapeuta que acompanham o paciente.
O que o fisioterapeuta faz na traqueostomia? Resumo por fase
Para facilitar a leitura, a tabela abaixo resume o que o fisioterapeuta faz e o que fica sob responsabilidade de outros profissionais em cada fase do cuidado.
| Fase do cuidado | O que o fisioterapeuta faz | Fica com outro profissional |
|---|---|---|
| Cirurgia da traqueostomia | Não participa da cirurgia | Médico cirurgião realiza o procedimento |
| Cuidado com a cânula | Avalia posição e fixação, verifica a pressão do cuff, faz higiene da cânula interna e cuida da pele ao redor | A troca da cânula em si é atribuição da equipe médica ou de enfermagem, conforme protocolo |
| Limpeza das vias aéreas | Realiza aspiração traqueal e técnicas de higiene brônquica | Cuidado compartilhado com a enfermagem |
| Ventilação mecânica | Opera, ajusta e monitora o ventilador; conduz o desmame | Prescrição inicial em conjunto com o médico |
| Decanulação | Avalia se o paciente está pronto e prepara a musculatura respiratória e a tosse | A retirada da cânula em si não é atribuição do fisioterapeuta; é decidida e executada pela equipe médica |
| Voz e deglutição | Apoia com controle do cuff e válvula de fala, e estimula a tosse | Reabilitação vocal e da deglutição é conduzida pelo fonoaudiólogo |
Nas próximas seções, cada uma dessas frentes é explicada em detalhe.
O que é traqueostomia e quando é indicada?
Traqueostomia é um procedimento cirúrgico que abre um orifício na traqueia, na parte da frente do pescoço, onde é colocada uma cânula. Essa cânula permite que o ar chegue direto aos pulmões, sem passar pela boca ou pelo nariz.
A indicação acontece quando a via aérea de cima está comprometida ou quando o paciente precisa de suporte do ventilador por tempo prolongado. As situações mais comuns são:
- Obstrução das vias aéreas superiores por tumor, inchaço (edema) ou trauma
- Necessidade de ventilação mecânica por tempo prolongado
- Incapacidade de proteger as vias aéreas por rebaixamento do nível de consciência
- Doenças neuromusculares progressivas que afetam a respiração
- Dificuldade grave para engolir, com risco de o alimento ir para o pulmão (aspiração)
O procedimento pode ser eletivo, quando planejado com antecedência, ou de urgência, em situações que ameaçam a vida. Vale reforçar: a cirurgia é realizada pelo médico. O fisioterapeuta entra logo após a colocação da cânula, para dar início ao suporte respiratório especializado.
Quais são os principais tipos de traqueostomia?
A traqueostomia pode ser classificada pela técnica usada e pelo objetivo do procedimento.
Traqueostomia cirúrgica convencional: feita no centro cirúrgico, com incisão direta na traqueia. É indicada em situações mais complexas ou quando é preciso avaliar a região com detalhe.
Traqueostomia percutânea por dilatação: técnica pouco invasiva, feita à beira do leito, geralmente na UTI. Usa um guia e dilatadores para criar o orifício sem incisão ampla. É comum em pacientes graves.
Traqueostomia temporária: usada quando a necessidade da via aérea artificial é passageira. Depois que a respiração se recupera, a cânula é retirada e o orifício tende a fechar sozinho.
Traqueostomia permanente: indicada quando não há perspectiva de o paciente voltar a respirar de forma independente pela via natural. É mais comum em doenças neuromusculares graves ou após a retirada total da laringe (laringectomia).
O tipo de traqueostomia influencia diretamente o plano de cuidados do fisioterapeuta, principalmente no manejo da cânula e no planejamento da decanulação.
Em quais pacientes a traqueostomia é mais comum?
Embora possa ser feita em qualquer idade, a traqueostomia é mais frequente em pacientes com condições clínicas graves ou crônicas. Os perfis mais comuns incluem:
- Pacientes internados em UTI com falência respiratória e dependência prolongada do ventilador
- Idosos com doenças neurológicas como AVC, Parkinson avançado ou demências graves, que comprometem a deglutição e a proteção das vias aéreas
- Pacientes com doenças neuromusculares, como esclerose lateral amiotrófica (ELA) e distrofias musculares
- Vítimas de trauma na cabeça ou no pescoço com comprometimento respiratório
- Pacientes com câncer de cabeça e pescoço que obstruem as vias aéreas
No cuidado em casa, os idosos com traqueostomia são uma parcela grande. Muitos precisam de acompanhamento especializado após a alta hospitalar, o que torna a integração entre a fisioterapia e os serviços de home care fundamental para a continuidade segura do tratamento.
Qual é o papel do fisioterapeuta na traqueostomia?
O fisioterapeuta é o profissional com formação específica para avaliar, tratar e reabilitar funções respiratórias e motoras. Na traqueostomia, esse papel é amplo e técnico, começa no hospital e pode se estender ao cuidado em casa.
As principais responsabilidades nesse contexto são:
- Higiene e monitoramento da cânula traqueal (limpeza, posição e pressão do cuff)
- Aspiração traqueal para manter as vias aéreas livres
- Ajuste e monitoramento do ventilador mecânico
- Técnicas de higiene brônquica e de expansão pulmonar
- Avaliação e preparo do paciente para a decanulação
- Reabilitação respiratória e apoio à recuperação da voz e da deglutição
É importante deixar claro o que fica fora do escopo do fisioterapeuta. Conforme o entendimento do COFFITO e da ASSOBRAFIR (Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva), acompanhar a cirurgia da traqueostomia, trocar a cânula e realizar a decanulação em si não são atribuições do fisioterapeuta. Ele avalia, prepara e acompanha, sempre em conjunto com a equipe.
Ou seja, o fisioterapeuta não age sozinho. Ele integra uma equipe multiprofissional com médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos e nutricionistas, todos com o mesmo foco: a recuperação e o bem-estar do paciente.
O fisioterapeuta pode atuar na UTI com pacientes traqueostomizados?
Sim. A atuação do fisioterapeuta na UTI com pacientes traqueostomizados não é só permitida: é recomendada e, no Brasil, exigida por lei.
A Resolução RDC nº 7/2010 da ANVISA determina que toda UTI tenha fisioterapeuta, com no mínimo um profissional para cada dez leitos em cada turno (manhã, tarde e noite), somando pelo menos 18 horas diárias de assistência. Isso reconhece formalmente a importância desse profissional no cuidado ao paciente crítico.
Nesse ambiente, o fisioterapeuta assume responsabilidades importantes, como o controle da ventilação mecânica, a prevenção de complicações pulmonares e o estímulo à mobilidade precoce. A presença diária desse profissional está associada a melhores resultados clínicos, como menor tempo de internação e menos pneumonia associada ao ventilador.
Para o paciente traqueostomizado, o fisioterapeuta avalia diariamente a respiração, adapta os parâmetros do ventilador conforme a evolução e planeja as etapas do desmame. Essa rotina sistemática torna a recuperação mais segura e eficiente.
Quais competências do COFFITO respaldam essa atuação?
O COFFITO, por meio de resoluções específicas, define o escopo de prática do fisioterapeuta e reconhece a fisioterapia respiratória e a fisioterapia em terapia intensiva. A Resolução COFFITO nº 402/2011, por exemplo, disciplina a especialidade profissional em Fisioterapia em Terapia Intensiva.
Entre as competências reconhecidas no manejo do paciente traqueostomizado estão:
- Realização de aspiração traqueal
- Verificação e cuidado com a cânula e com a pressão do cuff
- Operação, ajuste e monitoramento do ventilador mecânico
- Indicação e aplicação de técnicas de higiene brônquica
- Participação ativa na avaliação para o desmame e para a decanulação
Por outro lado, o COFFITO também esclarece os limites. Nos Acórdãos publicados em 2016, com base em parecer da ASSOBRAFIR, ficou definido que a troca de cânula e a decanulação em si não são atribuições do fisioterapeuta. O papel dele, nesses casos, é avaliar a indicação e o prognóstico, medindo parâmetros como capacidade vital, pico de fluxo da tosse e força muscular respiratória.
Esse respaldo, com clareza sobre o que pode e o que não pode, é especialmente útil no cuidado em casa, onde o fisioterapeuta muitas vezes atua com mais autonomia e precisa decidir dentro dos limites éticos e legais da profissão.
Como o fisioterapeuta cuida da cânula traqueal?
O cuidado com a cânula é uma das responsabilidades centrais do fisioterapeuta no paciente traqueostomizado. São ações técnicas que mantêm a via aérea artificial funcionando de forma segura.
Esse cuidado inclui avaliar regularmente a posição e a fixação da cânula, monitorar a pressão do cuff (o balonete que veda a traqueia), limpar a cânula interna e cuidar da pele ao redor do orifício.
O cuff tem um papel-chave: quando inflado na medida certa, ele impede que secreções da boca e da garganta desçam para os pulmões e garante que o ar do ventilador chegue bem aos alvéolos. Pressão fora do ideal, seja para mais ou para menos, pode causar complicações graves, como lesão na mucosa da traqueia ou pneumonia por aspiração.
Por isso, o fisioterapeuta verifica a pressão do cuff com um aparelho específico (manômetro), mantendo-a dentro dos valores seguros definidos pelos protocolos. Qualquer alteração é comunicada à equipe médica e registrada no prontuário.
Quando e como é feita a aspiração traqueal?
A aspiração traqueal é indicada sempre que há acúmulo de secreção que o paciente não consegue eliminar sozinho. Sinais de alerta que indicam a necessidade de aspiração:
- Ruído respiratório aumentado (chiado ou borbulho)
- Queda na saturação de oxigênio
- Secreção visível na cânula
- Desconforto respiratório e agitação
O procedimento segue etapas bem definidas:
- Higienização das mãos e uso de equipamentos de proteção
- Pré-oxigenação do paciente para reduzir o risco de queda de oxigênio
- Introdução da sonda pela cânula sem aplicar sucção
- Aplicação da sucção somente na retirada da sonda, com movimentos suaves
- Monitoramento da saturação, dos batimentos e do aspecto da secreção
- Reoxigenação após a aspiração, se necessário
A aspiração deve ser feita com critério. O excesso pode irritar a mucosa, causar sangramento ou desencadear broncoespasmo. O fisioterapeuta avalia a necessidade caso a caso e adapta a frequência conforme a evolução.
O fisioterapeuta pode trocar a cânula traqueal?
Este é um ponto que gera muita dúvida nas famílias, e a resposta precisa ser clara. Conforme o entendimento do COFFITO e da ASSOBRAFIR, a troca da cânula traqueal não é uma atribuição do fisioterapeuta. Esse procedimento cabe à equipe médica ou de enfermagem, de acordo com o protocolo do serviço.
O papel do fisioterapeuta é diferente e igualmente importante: ele avalia a cânula, identifica quando algo não vai bem (por exemplo, secreção que não responde à aspiração ou sinais de obstrução) e comunica a equipe para que a conduta adequada seja tomada.
Em casa, isso reforça a necessidade de uma equipe bem organizada. Quando o paciente recebe alta com traqueostomia, é fundamental que o serviço de atendimento domiciliar conte com os profissionais certos e os materiais adequados para cada tipo de cuidado, cada um dentro da sua competência.
Como o fisioterapeuta atua no ventilador mecânico?
A ventilação mecânica invasiva, usada em pacientes que não conseguem respirar sozinhos de forma adequada, é uma das áreas de maior competência técnica do fisioterapeuta. Ele é habilitado para operar, ajustar e monitorar o ventilador, sempre com base na avaliação clínica.
A atuação começa na escolha do modo de ventilação mais adequado para cada fase. Modos controlados são usados quando o paciente ainda não tem estímulo respiratório suficiente; modos assistidos permitem que ele participe da respiração, favorecendo o desmame gradual.
O fisioterapeuta também monitora parâmetros como volume corrente, pressão de pico, PEEP, fração de oxigênio inspirado e complacência pulmonar. Esses dados orientam os ajustes diários e ajudam a identificar cedo qualquer piora respiratória.
O objetivo final é sempre reduzir aos poucos a dependência do aparelho, até o paciente voltar a respirar de forma independente, processo chamado de desmame ventilatório.
Quais ajustes ventilatórios o fisioterapeuta realiza?
Os ajustes são guiados pela avaliação clínica contínua e pelos dados do próprio equipamento. Os principais são:
- Volume corrente: quantidade de ar entregue a cada respiração, calculada com base no peso ideal para evitar lesão pulmonar
- Frequência respiratória: número de respirações por minuto definidas pelo aparelho
- PEEP: pressão mantida nos pulmões ao final da expiração, importante para evitar o colapso dos alvéolos
- FiO2: concentração de oxigênio no ar inspirado, ajustada conforme a saturação
- Sensibilidade do disparo (trigger): define o esforço para o paciente acionar uma respiração assistida
- Relação inspiração/expiração: tempo de inspiração em relação ao de expiração, relevante em quem tem obstrução das vias aéreas
Cada ajuste afeta diretamente a oxigenação, a ventilação e o conforto do paciente. Por isso, o fisioterapeuta precisa dominar tanto o equipamento quanto a fisiologia respiratória que fundamenta cada decisão.
Como é feita a montagem e a limpeza do ventilador mecânico?
A montagem correta do circuito do ventilador influencia diretamente a eficácia da ventilação e a prevenção de infecções. O fisioterapeuta é responsável por essa tarefa no hospital e também em casa.
A montagem envolve conectar corretamente os tubos, filtros, umidificadores e válvulas, além de conferir vedações para evitar vazamentos. Antes de conectar o paciente, o circuito é testado para confirmar que os parâmetros programados estão sendo entregues.
A limpeza e a troca do circuito seguem protocolos que variam conforme o tipo de circuito (descartável ou reutilizável) e as normas do serviço. Em geral, os circuitos são trocados quando estão visivelmente contaminados ou dentro do prazo recomendado pelo fabricante e pelos protocolos de controle de infecção.
Em casa, a manutenção do equipamento é compartilhada entre o fisioterapeuta, a empresa fornecedora do ventilador e os cuidadores treinados. Uma rotina bem organizada é essencial para a segurança do paciente fora do hospital.
O que é a decanulação e como o fisioterapeuta atua?
Decanulação é a retirada definitiva da cânula traqueal. Ela marca o momento em que o paciente recupera a capacidade de respirar de forma segura pela via aérea natural. É um dos momentos mais aguardados na recuperação e representa um marco importante na reabilitação.
Essa decisão nunca é isolada. Ela resulta de uma avaliação feita pela equipe de saúde. O fisioterapeuta ocupa uma posição central nessa avaliação, porque é ele quem acompanha diariamente a evolução da respiração, a força dos músculos respiratórios e a capacidade de tosse do paciente.
Vale um esclarecimento honesto: a retirada da cânula em si não é atribuição do fisioterapeuta, e sim da equipe médica. O papel do fisioterapeuta é avaliar se o paciente está pronto e preparar o corpo para funcionar sem a cânula. Quando bem conduzida em conjunto, a decanulação é um passo decisivo para a autonomia e a qualidade de vida.
Em idosos, esse processo exige atenção redobrada. Fatores como perda de massa muscular (sarcopenia), doenças crônicas e menor reserva funcional podem tornar o desmame mais lento e exigir uma abordagem individualizada, muitas vezes continuada em casa com apoio de serviços especializados de home care.
Quais critérios são avaliados antes da decanulação?
Antes de iniciar o processo, o fisioterapeuta avalia critérios clínicos que indicam se o paciente está preparado para respirar com segurança sem a cânula:
- Estabilidade respiratória e cardiovascular: batimentos, pressão e saturação dentro do normal, sem suporte intensivo
- Tosse eficaz: o paciente precisa conseguir eliminar secreções sozinho
- Nível de consciência adequado: para proteger as vias aéreas e colaborar com os exercícios
- Sem obstrução na via aérea superior: verificada com oclusão temporária da cânula (teste do tampão)
- Secreção em quantidade manejável: volume reduzido, que não exija aspirações frequentes
- Deglutição segura: avaliada em conjunto com a fonoaudiologia, para reduzir o risco de aspiração após a retirada
Quando os critérios são atendidos, a equipe planeja a retirada gradual, muitas vezes com uso de cânulas de menor diâmetro ou fenestradas como etapas intermediárias.
Quais técnicas fisioterapêuticas auxiliam na decanulação?
O preparo para a decanulação envolve técnicas que fortalecem a musculatura respiratória, ajudam a mobilizar secreções e estimulam a tosse. As principais são:
- Treinamento muscular inspiratório: uso de dispositivos com resistência que aumentam aos poucos a força dos músculos da inspiração
- Higiene brônquica: técnicas como drenagem postural, vibração e compressão do tórax, que facilitam a saída de secreções
- Estímulo à tosse: manobras manuais e tosse assistida que aumentam a força para eliminar secreções
- Oclusão progressiva da cânula: tampar a cânula por períodos cada vez maiores para testar a tolerância à respiração natural
- Exercícios de respiração profunda: para expandir os pulmões e reverter possíveis áreas colapsadas (atelectasias)
A escolha e a intensidade de cada técnica são individualizadas. O fisioterapeuta adapta o plano conforme a resposta do paciente, avança quando há sinais de tolerância e recua quando necessário para evitar complicações.
Como é a reabilitação fisioterapêutica pós-traqueostomia?
Após a decanulação, ou mesmo enquanto o paciente ainda está traqueostomizado, a reabilitação fisioterapêutica é fundamental para recuperar a função respiratória, a capacidade física geral e a qualidade de vida.
Essa fase pode acontecer no hospital ou em casa, dependendo da evolução. No cuidado em casa, o fisioterapeuta trabalha em parceria com cuidadores e familiares para dar continuidade ao tratamento iniciado na internação.
A reabilitação é sempre individualizada. Ela leva em conta o diagnóstico de base, o tempo de traqueostomia, o nível de dependência e os objetivos de cada pessoa. Um idoso traqueostomizado após um AVC tem necessidades bem diferentes de um adulto jovem que usou a traqueostomia por pouco tempo após um trauma.
A atuação preventiva do fisioterapeuta também se estende a essa fase, reduzindo o risco de recaídas, novas internações e complicações tardias.
Quais exercícios respiratórios são usados na recuperação?
Os exercícios respiratórios da reabilitação pós-traqueostomia buscam expandir os pulmões, fortalecer a musculatura respiratória e melhorar a resistência ao esforço. Os mais usados incluem:
- Respiração diafragmática: estimula o diafragma como principal músculo da respiração, melhorando a eficiência e reduzindo o esforço para respirar
- Respiração com lábios franzidos: prolonga o tempo de expiração, ajuda a controlar a falta de ar e mantém as vias aéreas abertas por mais tempo
- Expansão costal: exercícios que direcionam o ar para regiões específicas dos pulmões, prevenindo o colapso de áreas pulmonares
- Inspirômetro de incentivo: dispositivo que estimula inspirações profundas, muito útil no pós-operatório
- Treinamento muscular respiratório com resistência: melhora a força e a resistência dos músculos da inspiração
Esses exercícios são feitos em sessões regulares, com intensidade progressiva conforme a tolerância do paciente. O fisioterapeuta monitora a resposta a cada sessão e ajusta o programa conforme a evolução.
Como a fisioterapia ajuda na recuperação da voz e da deglutição?
A traqueostomia pode afetar bastante a voz e a capacidade de engolir. Isso acontece porque a cânula altera o caminho do ar pelas pregas vocais e modifica as sensações envolvidas no ato de engolir.
A reabilitação da voz e da deglutição é conduzida pelo fonoaudiólogo, a especialidade de referência para essa área. O fisioterapeuta contribui de forma direta, em parceria, com ações como:
- Manejo do cuff para permitir a passagem de ar pelas pregas vocais durante a fala
- Apoio ao uso de válvulas de fala (como o modelo Passy-Muir), que direcionam o ar pela laringe e favorecem a voz; nesses casos, o cuff precisa estar desinflado
- Estímulo à tosse eficaz para proteger as vias aéreas durante a deglutição
- Exercícios de mobilidade da musculatura do pescoço e do tórax que ajudam indiretamente a engolir
O trabalho conjunto entre fisioterapeuta e fonoaudiólogo é especialmente importante em idosos com dificuldade para engolir (disfagia). A aspiração silenciosa, quando não detectada, representa risco grave de pneumonia por aspiração e de nova internação.
Quais riscos e complicações o fisioterapeuta ajuda a prevenir?
A presença ativa do fisioterapeuta no cuidado ao paciente traqueostomizado está diretamente ligada à prevenção de complicações que podem ser graves. Entre as principais, evitadas com o manejo adequado, estão:
- Pneumonia associada à ventilação mecânica: prevenida com higiene brônquica, aspiração criteriosa e elevação correta da cabeceira
- Atelectasia: colapso de regiões do pulmão, combatido com exercícios de expansão e mobilização precoce
- Obstrução da cânula: evitada com aspiração regular e umidificação adequada do ar
- Lesão na traqueia: prevenida com o monitoramento rigoroso da pressão do cuff
- Fraqueza dos músculos respiratórios: combatida com treinamento progressivo desde a fase aguda
- Dependência prolongada do ventilador: reduzida com protocolos de desmame conduzidos pelo fisioterapeuta
Cada uma dessas complicações pode prolongar a internação, aumentar custos e piorar o prognóstico. A atuação preventiva do fisioterapeuta é, portanto, um investimento direto em segurança e qualidade de cuidado.
Como o fisioterapeuta contribui para a segurança na UTI?
Na UTI, a segurança do paciente é responsabilidade de toda a equipe, e o fisioterapeuta tem papel ativo. Sua presença contínua à beira do leito permite uma vigilância que vai além das visitas médicas periódicas. Entre as contribuições estão:
- Identificação precoce de sinais de piora respiratória, como aumento do esforço para respirar, dessincronia com o ventilador ou queda da saturação
- Comunicação imediata à equipe médica de achados relevantes
- Participação nas rondas multiprofissionais para discutir o plano de cuidados
- Registro detalhado das intervenções e da evolução
- Aplicação de protocolos de prevenção de pneumonia associada ao ventilador
Em casa, essa capacidade de vigilância e comunicação é igualmente valiosa. O fisioterapeuta que acompanha o paciente precisa reconhecer quando a situação exige encaminhamento para o hospital, evitando que problemas que poderiam ser resolvidos cedo virem emergências.
Para famílias que cuidam de idosos com traqueostomia em casa, contar com uma equipe domiciliar bem estruturada faz toda a diferença na segurança e na qualidade de vida.
Quando procurar ajuda profissional com urgência
Se o seu familiar tem traqueostomia e é cuidado em casa, alguns sinais pedem contato imediato com a equipe de saúde ou com o atendimento de urgência:
- Dificuldade súbita para respirar ou respiração muito ruidosa mesmo após a aspiração
- Cânula que saiu do lugar ou saiu por completo
- Sangramento pela cânula ou ao redor do orifício
- Febre, secreção com cor forte ou cheiro ruim (possível infecção)
- Pele muito vermelha, inchada ou com ferida ao redor do estoma
- Coloração azulada nos lábios ou nas unhas
Na dúvida, procure orientação profissional. Em situações que ameaçam a vida, acione o serviço de emergência.
Conclusão: por que o fisioterapeuta é essencial na traqueostomia?
A atuação do fisioterapeuta na traqueostomia é ampla, técnica e indispensável. Desde a colocação da cânula até a reabilitação completa, esse profissional está presente em cada etapa decisiva, sempre dentro das suas competências e em parceria com a equipe, contribuindo para desfechos mais seguros e humanizados.
Seu papel vai muito além da aspiração ou dos ajustes no ventilador. Ele envolve avaliação clínica contínua, decisão fundamentada, trabalho em equipe e uma relação de cuidado que enxerga a pessoa como um todo, e não apenas a doença.
Para idosos, que muitas vezes chegam à traqueostomia com várias condições associadas, a fisioterapia pode ser a diferença entre a dependência permanente e o retorno a uma vida com mais autonomia. Entender a relação entre gerontologia e qualidade de vida ajuda a dimensionar por que esse cuidado especializado é tão valioso.
Se você tem um familiar traqueostomizado e está planejando a transição para o cuidado em casa, buscar um serviço que inclua fisioterapia especializada é um passo fundamental. Escolher bem os profissionais que farão parte desse cuidado é uma das decisões mais importantes para garantir a segurança e o bem-estar do seu familiar.
Fontes
- COFFITO. Acórdãos publicados em 2016 com parecer da ASSOBRAFIR sobre as atribuições do fisioterapeuta (troca de cânula e decanulação): coffito.gov.br
- COFFITO. Resolução nº 402/2011, que disciplina a especialidade profissional em Fisioterapia em Terapia Intensiva: normaslegais.com.br
- ANVISA. Resolução RDC nº 7, de 24 de fevereiro de 2010, sobre requisitos de funcionamento de UTIs, incluindo a presença do fisioterapeuta: bvsms.saude.gov.br
- ASSOBRAFIR. Pareceres e legislação sobre fisioterapia cardiorrespiratória e em terapia intensiva: assobrafir.com.br